El Niño atual pode ser "o mais potente" em quatro décadas, alerta ONU
O atual episódio de El Niño pode ser "o mais potente" já observado desde que o monitoramento desse fenômeno climático começou, há quatro décadas, alertou nesta quinta-feira (3) a Organização Meteorológica Mundial (OMM) da ONU.
O evento meteorológico natural eleva as temperaturas da superfície no centro e no leste do Pacífico equatorial, o que tem o potencial de desencadear mudanças nos padrões de ventos, pressão e chuvas em todo o planeta.
Na América Latina, países como Panamá e El Salvador decretaram estado de emergência para enfrentar o episódio de El Niño, que já forçou inclusive a redução do tráfego de navios pelo Canal do Panamá. O Equador, por sua vez, decretou alerta vermelho diante da forte intensificação do fenômeno.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño alcançará o ponto máximo até o final do ano, mas os impactos no clima prosseguirão durante 2027.
"O El Niño está claramente estabelecido e vai se intensificar até se tornar um fenômeno muito forte nos próximos meses, com grandes impactos nos padrões de precipitação e temperatura, além de riscos associados a inundações, secas e calor extremo", afirmou a agência da ONU.
A secretária-geral da OMM, a argentina Celeste Saulo, enfatizou que o episódio atual "pode ser mais potente que tudo o que foi observado desde que começamos nosso monitoramento" há quatro décadas.
Embora não seja provocado pelas mudanças climáticas, os cientistas esperam que o El Niño agrave as temperaturas de um planeta que está esquentando devido à queima de combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que intensifica os fenômenos meteorológicos extremos.
"O El Niño está se tornando gigantesco diante de nossos olhos", alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, destacando que "o mundo está na zona de perigo do clima extremo".
- "Golpe devastador" para as economias -
O El Niño costuma atingir o ponto máximo no fim do ano, mas o calor dos oceanos é liberado mais lentamente para a atmosfera, o que eleva as temperaturas globais durante os 12 meses seguintes.
O ano mais quente já registrado foi 2024, após o último El Niño.
"Este El Niño excepcional (...) tem o potencial de provocar um golpe devastador nas comunidades e economias em todo o mundo", afirmou Celeste Saulo.
"Já estamos vendo perturbações e devastação causadas por secas e inundações, e esperamos que estes impactos aumentem à medida que o El Niño se intensifique", avaliou.
"Não há tempo a perder", advertiu, pedindo às autoridades de gestão de desastres e aos setores sensíveis ao clima, como agricultura, saúde, energia e recursos hídricos, que adotem medidas de prevenção.
O El Niño costuma acontecer a cada dois a sete anos e durar entre nove e 12 meses. As condições oscilam entre o El Niño e seu oposto, La Niña, com estados neutros no meio.
A OMM ressaltou que existe uma "probabilidade extraordinariamente elevada, próxima de 100%" de que o episódio atual prossiga até fevereiro.
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) lançou um apelo para arrecadar US$ 110 milhões (R$ 560,5 milhões) a fim de proteger 4,9 milhões de pessoas dos efeitos "potencialmente graves" do novo episódio do El Niño.
- Oceano Pacífico -
O El Niño pode alterar os padrões meteorológicos e climáticos a milhares de quilômetros de distância do Pacífico tropical.
Cada episódio de El Niño é diferente, mas os eventos mais significativos costumam seguir padrões conhecidos. Isso inclui secas em partes da Amazônia, Indonésia e Austrália, monções alteradas na Índia e mudanças nas precipitações em toda a faixa tropical.
Wilfran Moufouma-Okia, chefe de Previsão Climática da OMM, indicou que algumas regiões provavelmente seriam afetadas antes, outras durante e outras depois do pico previsto para este ano, e observou que a intensidade desse pico torna impossível prever quão graves serão as consequências.
Para o período de setembro a novembro, as previsões da OMM indicam maior probabilidade de temperaturas acima do normal "em praticamente todas as áreas continentais".
O índice que mede as anomalias na temperatura da superfície do mar no centro-leste do Pacífico equatorial se intensificou a partir de uma média de 1,5°C acima do normal entre maio e julho.
Os valores semanais entre o fim de julho e meados de agosto variaram entre cerca de 2,2°C e 2,6°C acima da média, o que indica uma intensificação contínua do El Niño.
Em algumas áreas, as temperaturas subsuperficiais do oceano ficaram mais de 8°C acima da média durante julho e início de agosto.
Y.Bauer--BP