Governo francês nega 'repressão policial' em protestos estudantis
O governo francês repudiou as críticas de "repressão policial" nesta terça-feira (6), quando dezenas de milhares de estudantes do ensino médio, acompanhados de seus pais, professores e sindicatos, voltaram às ruas para reivindicar melhores condições de ensino na França.
Desde o fim de setembro, estudantes com idades entre 15 e 18 anos bloquearam centenas de escolas de ensino médio para denunciar a não substituição de professores ausentes e horários sobrecarregados, além de salas de aula deterioradas e incapazes de dar conta do aumento das temperaturas.
Os protestos são marcados por confrontos entre policiais e manifestantes. O governo e os partidos de direita e extrema direita denunciam os distúrbios registrados durante os protestos e acusam o partido de esquerda A França Insubmissa de querer "semear o caos" com vistas às eleições presidenciais de 2027.
O presidente americano, Donald Trump, culpou o "islã, que quer se apoderar" da França, e a "imigração maciça fora de controle" pelos protestos.
"O que está acontecendo na França não é outra coisa que uma migração maciça fora de controle. Isto não tem a ver com as escolas, trata-se do islã que quer se apoderar de um país que antes foi grande", postou Trump em sua plataforma, Truth Social.
A oposição de esquerda francesa, por outro lado, acusa o governo de reprimir os protestos. Um jovem de 15 anos perdeu uma mão na segunda-feira quando, segundo uma fonte do sindicato policial, pegou uma granada de dispersão em Lens, no norte da França, enquanto outros estudantes perderam a visão de um olho ou dentes nas investidas das forças de segurança.
A polícia abriu uma dezena de investigações internas sobre agentes por acusações de violência, entre elas uma nesta terça-feira (6), após a difusão de um vídeo que mostra um policial à paisana que parece tocar os cabelos e o peito de uma jovem que tinha sido detida em Metz.
"Não podemos deixar nenhuma margem de tolerância à violência", afirmou o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, de centro-direita, durante uma tensa sessão de controle do governo no Parlamento, na qual qualificou de "mentiras" falar de "instruções políticas de repressão policial" e evocou "acidentes".
"Acidentes? Senhor primeiro-ministro, não tem nada mais a dizer (...) Perdeu a razão!", afirmou o deputado ecologista Benjamin Lucas-Lundy, que acusou o governo de permitir o uso de "armas de guerra" contra os estudantes.
Desde o início do movimento, o governo diz que 215 estudantes ficaram feridos, assim como 85 docentes e 715 policiais.
O ministro do Interior, Laurent Nuñez, assegurou que as intervenções policiais foram realizadas com a "máxima proporcionalidade", mas vários sindicatos e organizações de defesa dos direitos humanos acusam a polícia de empregar uma força desproporcional.
- "Sem futuro" -
As denúncias contra a atuação da polícia se somaram, nesta terça-feira, às queixas dos estudantes do ensino médio, entre elas suas críticas ao Parcoursup, um sistema obrigatório para acessar o ensino superior e que os alunos consideram estressante e pouco transparente.
As aulas foram suspensas "total ou parcialmente" em quase 900 das 3.700 escolas de ensino médio na França, segundo o ministério da Educação. As autoridades anunciaram cerca de 256.000 manifestantes em todo o país, número que as organizações estudantis que convocaram os atos elevaram para 450.000.
"A única coisa que pedimos é poder trabalhar e ter boas condições de trabalho, simplesmente", explicou à AFP Loan, aluna do último ano do ensino médio em Marselha. Em Nantes, a faixa à frente do protesto dizia: "Escolas sem dinheiro, país sem futuro".
Pais, sindicatos e estudantes universitários aderiram às manifestações. As universidades de Aix-Marseille, a mais importante da França, com 84.000 alunos, e a Sorbonne decidiram fechar seus campi.
Em Lyon, no leste da França, pais de alunos com braceletes brancos e sindicalistas se somaram aos protestos para garantir um dia de calma.
"No nível da segurança e da polícia, muitos estudantes do ensino médio se encontram em um estado catastrófico", traumatizados com a violência, afirmou Karima, membro do coletivo "Pais presentes", criado em caráter de urgência no domingo e que já reivindica ter 150 membros.
Os protestos ocorrem meses antes das eleições presidenciais de abril e maio de 2027, nas quais a candidata da extrema direita Marine Le Pen aparece à frente nas pesquisas, e quando o governo busca aprovar orçamento com um forte ajuste fiscal para reduzir os elevados déficit e dívida públicos, em um contexto de preocupação nos mercados.
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B.Koch--BP