Nossa Senhora Aparecida ressurge na campanha eleitoral às vésperas do 2º turno
Com bengalas, flores e lágrimas nos olhos, milhares de peregrinos veneram, nesta segunda-feira (12), Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro disputam o voto decisivo dos católicos para o segundo turno.
A Virgem Negra tornou-se protagonista do primeiro turno das eleições presidenciais, quando o senador conservador teve que negar uma informação falsa que sugeria que ele pretendia retirar-lhe o título de padroeira caso se tornasse presidente.
Flávio Bolsonaro (PL), favorito no segundo turno de 25 de outubro, é evangélico, e a "fake news" foi usada até mesmo pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em uma tentativa de reforçar sua preferência entre os católicos.
No feriado nacional da santa, Lula, de 80 anos, e Flávio, de 45, assistem a missas separadas em Brasília, em gestos voltados ao eleitorado católico.
No Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo, religião e política também caminharam juntas com a presença do candidato a vice-presidente de Lula, Geraldo Alckmin (PSB), na primeira fila de uma missa onde milhares de pessoas cantaram emocionadas, agitando os tradicionais lenços azuis.
Os católicos são maioria no Brasil (quase 57%), mas seu número está em declínio diante do forte avanço dos evangélicos (27%), segundo os dados oficiais mais recentes, de 2022.
- "Pura jogada política" -
Apoiada na bengala que a guiou durante sete dias e 240 km de caminhada desde sua cidade Valinhos, Maria Vanda Lopes se preparava, do lado de fora do templo, para entrar e ver a Virgem — uma pequena estátua de terracota encontrada por três pescadores em 1717 que encheu suas redes de peixes.
"A controvérsia é um absurdo. Pura jogada política, ninguém vai tirar o título de padroeira", diz à AFP a mulher de 54 anos, que estuda pedagogia.
Ela tem seu voto definido: "Sou feminina, não feminista. Eu sou tradicional, eu sou de direita. Vou com Bolsonaro", acrescenta, em uma esplanada guardada por estátuas de apóstolos e santos.
As pesquisas indicam que a maioria dos católicos vota em Lula, enquanto os evangélicos preferem Flávio Bolsonaro, assim como preferiam seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).
Radiantes por terem acabado de ficar noivos e levando um "convite" para a Virgem, Jessica Rocha, de 28 anos, e Eric Santos, de 24, desconfiam do senador, que, se eleito, poderia retirar o título de padroeira "a qualquer momento".
Eleitores de Lula, esses jovens que chegaram de ônibus do Rio de Janeiro negam, no entanto, sentir-se "ameaçados" pelo crescimento dos evangélicos no Brasil.
- Convivência "super normal" -
"Seria importante não misturar política com religião", afirma David de Santos, sob seu chapéu de caubói, após percorrer 50 km sob chuva nas últimas 24 horas para chegar ao santuário, que se reivindica como o maior templo mariano do mundo.
Sem querer revelar seu voto, este operador de motosserra, de 47 anos, exalta a convivência entre católicos e evangélicos.
Ele conta que, em seu trajeto, encontrou evangélicos oferecendo apoio aos peregrinos. "Distribuíam água, fruta, remédio".
"Um bom exemplo dessa convivência super normal está no núcleo familiar da família Bolsonaro", diz à AFP o pastor Gustavo Knauer, lembrando que, ao contrário de Flávio, Jair é católico.
Knauer, especialista em ciências políticas, defende o maior peso eleitoral de seu grupo.
"Hoje nós decidimos quem é o presidente do Brasil, porque o evangélico tem um fenômeno que é o voto em bloco, tem um sentimento de pertencimento no grupo maior que o católico", afirma.
Para Rodrigo Nunes, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, o discurso conservador dos evangélicos tem funcionado como "um polo magnético no debate público".
Questões morais, como as de gênero, ganharam força inclusive entre os católicos, e isso faz com que, nestas eleições, ocorra uma "migração" de votos católicos para a direita, explica à AFP.
As pesquisas preveem uma vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula no segundo turno, depois de o conservador ter superado o candidato de esquerda por cerca de dois pontos no primeiro turno.
Q.Schmid--BP